Sinergias Escola-Empresa: Tendências na Formação em Contexto de Trabalho (FCT).

A evolução da economia global e as consequentes mudanças nos processos organizacionais e técnico-produtivos têm acentuado a necessidade de uma maior aproximação entre as instituições de ensino e o mercado de trabalho. Atualmente, o sucesso profissional e a empregabilidade não dependem apenas das qualificações formais e técnicas, mas exigem a mobilização ativa de competências transversais — tais como a capacidade de adaptação, a inovação e a resolução de problemas (Evers, Rush, & Berdrow, 1998; Parente, 2017). Para dar resposta a este desafio, as sinergias escola-empresa assumem uma importância vital, consolidando a Formação em Contexto de Trabalho (FCT) como uma tendência estrutural e estratégica no desenvolvimento do capital humano.
A Transição para o Sistema Dual e o Learning by Doing Historicamente, as escolas e os sistemas de ensino operaram, em grande medida, isolados do mundo real do mercado de trabalho. Para contrariar esta tendência, têm ganho força os programas de aprendizagem integrada no trabalho (do inglês Work-Integrated Learning – WIL) e os modelos de inspiração dual. Segundo Euler (2013), a combinação da aprendizagem teórica em sala de aula com a aprendizagem prática nas empresas conduz a uma maior adequabilidade entre a formação e o perfil requerido pelo mercado, o que se traduz num aumento substancial da empregabilidade.
Esta articulação fundamenta-se no princípio do learning by doing (aprender fazendo). O desenvolvimento simultâneo de conhecimentos na escola e em contexto real de trabalho motiva os formandos, reduz as taxas de abandono e promove o desenvolvimento eficaz de competências profissionais, metodológicas e sociais, permitindo ao aluno aprender passo-a-passo a assumir responsabilidades de forma autónoma.
O Papel Ativo da “Empresa Formadora” e do Tutor Neste novo paradigma formativo, a empresa deixa de ser uma mera recetora de diplomados para assumir o estatuto ativo de “empresa formadora”. A FCT exige a imersão em espaços operacionais com condições reais, onde o aluno é avaliado pelas suas competências práticas. No entanto, a qualidade deste processo depende fortemente da estrutura de acompanhamento oferecida pela organização.
A figura do tutor na empresa assume aqui uma relevância capital. De acordo com Peixoto e Silva (2019), o tutor não é apenas um técnico experiente; é o profissional encarregue de planear e conceber o plano individual de atividades do formando, assegurar a sua integração e as condições logísticas necessárias, bem como monitorizar e acompanhar o seu progresso no dia a dia. O tutor tem a responsabilidade de articular a aprendizagem com a entidade formadora e de fornecer um feedback contínuo. É precisamente esta coordenação rigorosa entre os dois contextos que evita o risco de a formação resvalar para um mero treino mecânico focado nas lógicas limitadas de um único posto de trabalho, garantindo, em vez disso, uma formação alargada e integral da função (Marques, 1991).
Desafios para o Futuro Apesar dos vastos benefícios para o rejuvenescimento das equipas de trabalho e para a redução dos custos de recrutamento por parte das empresas, a consolidação destas sinergias enfrenta desafios. Em primeiro lugar, a aceitação social do ensino vocacional e profissional continua a ser um obstáculo em muitas sociedades, onde ainda se tende a atribuir um status mais elevado ao ensino regular, relegando a via profissional para uma segunda escolha (Euler, 2013).
Em segundo lugar, exige-se uma adaptação contínua das instituições de ensino superior e profissional, que necessitam de dotar os seus currículos de maior flexibilidade para responder aos particularismos das dinâmicas económicas locais e setoriais. Simultaneamente, as empresas precisam de interiorizar que a sua participação no planeamento e avaliação dos processos formativos não é um custo, mas sim um investimento direto na sua competitividade futura.
As tendências demonstram que o isolamento educativo já não é viável. A integração sustentada através da FCT, ancorada na parceria bidirecional e na figura do tutor, constitui a via mais robusta para transitar da formação escolar diretamente para a inovação e produtividade exigidas no local de trabalho.
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Referências Bibliográficas
Dias, P. C., Hormigo, I., Marques, R., Pereira, A., Correia, C., & Pereira, P. (2017). Análise da implementação do ensino vocacional básico em Portugal nas treze escolas do projeto-piloto. Interacções, (46), 15-44.
Dualvet. (s.d.). Plano estratégico – Dualvet: Transferência de metodologias de sucesso para implementação do sistema de aprendizagem em regime de alternância. Programa de Aprendizagem ao Longo da Vida.
Euler, D. (2013). Germany’s dual vocational training system: A model for other countries? Bertelsmann Stiftung.
Evers, F. T., Rush, J. C., & Berdrow, I. (1998). The bases of competence: Skills for lifelong learning and employability. ERIC.
Marques, M. (1991). Como usar a comunidade como recurso pedagógico. Aprender, 13, 49-57.
Parente, C. (2017). Para uma análise da gestão de competências profissionais. Sociologia: Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 14.
Peixoto, P., & Silva, E. (2019, 4 de dezembro). A importância das empresas na educação e formação [Apresentação de slides]. 4.º Encontro Regional da Educação e Formação Profissional do Grande Porto. ATEC/DUAL.