Património, Memória e Identidade – A Museografia Digital na Preservação do Património Local com Novas Tecnologias

A intersecção entre património, memória e identidade constitui o alicerce fundamental para a compreensão das sociedades e da sua continuidade histórica. No contexto da transição da museologia tradicional para a “Nova Museologia”, o museu deixou de ser encarado como um mero repositório de obras raras ou um “mausoléu” para assumir uma função eminentemente social. Como salienta Muchacho (2009), a Nova Museologia inverteu o paradigma: o foco passou da coleção de objetos para a comunidade e o território, compreendendo a memória coletiva como a base do património e o referencial para a transformação da realidade local. O património passou, assim, a ser interpretado como um reflexo direto da identidade de um grupo social, onde os cidadãos não são apenas observadores passivos, mas atores na construção da sua própria memória.
Neste novo paradigma, as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) vieram redefinir o espaço museológico e as práticas de salvaguarda, impulsionando a chamada museografia digital. A digitalização do património material e imaterial emerge como uma resposta indispensável à fragilidade e vulnerabilidade dos bens culturais frente à degradação temporal, ambiental ou a catástrofes. Duarte Gonçalves e Souza Pereira (2019) ilustram esta urgência recordando o trágico incêndio no Museu Nacional (Rio de Janeiro) em 2018; perante o desaparecimento da materialidade, o registo documental e digital do acervo tornou-se o único meio de preservação e investigação, demonstrando que a informação sobre o património adquire uma importância capital.
A introdução de tecnologias como a fotogrametria, a modelação tridimensional (3D) e a Realidade Aumentada (RA) permitiu novos métodos de levantamento e registo do património construído e móvel. Segundo Freire (2012), a RA, ao sobrepor objetos virtuais ao mundo real, enriquece a experiência do visitante nos sítios históricos, ativando mapas mentais que facilitam a cognição espacial e a apreensão do imaginário do lugar. Estas tecnologias não só apoiam a restauração e conservação de edifícios históricos, mas também garantem experiências imersivas que democratizam o acesso e promovem o turismo cultural. De facto, a Comissão Europeia (2021) recomenda fortemente a digitalização avançada em 3D de monumentos e património em risco, reconhecendo o seu potencial para a educação, inovação e sustentabilidade ambiental.
Para além dos artefactos materiais, as novas tecnologias são essenciais para a preservação do património imaterial e para a afirmação de identidades locais. Velhinho e Almeida (2023) destacam que processos de mapeamento cultural e cocriação ativam sistemas sociotécnicos que engajam diretamente as comunidades. De igual modo, Andrez (2021), no seu estudo sobre o Museu Escolar Oliveira Lopes, demonstra como a curadoria digital, através da recolha em vídeo de testemunhos orais, permite capturar memórias individuais que formam a memória coletiva de uma instituição local, assegurando a sua disseminação através da Web. Monteiro, Lima e Pinho Neto (2023) corroboram esta perspetiva, afirmando que o uso das TDIC em comunidades tradicionais vai além da preservação, servindo também como instrumento para a disseminação, visibilidade e garantia do pleno exercício da cidadania destas populações.
Contudo, a museografia digital também enfrenta desafios significativos, nomeadamente ao nível da “curadoria digital” a longo prazo. A digitalização não significa automaticamente preservação. As instituições deparam-se com a obsolescência de softwares, problemas de interoperabilidade e a necessidade contínua de criar metadados padronizados para garantir a integridade e acessibilidade contínua dos objetos digitais. Além disso, a desmaterialização da obra e a sua imersão na rede questionam a “aura” e a singularidade do objeto original, tal como teorizado por Walter Benjamin, uma vez que o artefacto é retirado do seu contexto físico imediato e inserido num fluxo de dados variável e hipermediado.
A relação entre Património, Memória e Identidade encontra na museografia digital uma aliada poderosa, sobretudo na escala local. As novas tecnologias permitem recriar ambientes destruídos, salvaguardar saberes ancestrais e promover a apropriação do património por parte da comunidade. Exige-se, contudo, uma estratégia de curadoria ética e técnica contínua, onde a tecnologia seja encarada não como um fim em si mesmo, mas como um meio de mediação transparente e inclusivo para valorizar o legado humano.
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Referências Bibliográficas
Andrez, B. (2021). Museu Escolar Oliveira Lopes: Curadoria digital e preservação. In P. M. Homem (Ed.), Museus e Formação: Novas Competências para a Transformação Digital (pp. 84-99). FLUP/DCTP.
Comissão Europeia. (2021). Recomendação (UE) 2021/1970 da Comissão de 10 de novembro de 2021 relativa a um espaço comum europeu de dados para o património cultural. Jornal Oficial da União Europeia.
Duarte Gonçalves, L. M., & Souza Pereira, L. (2019). Fotogrametria Aplicada ao Patrimônio de Poços de Caldas. Fórum Patrimônio.
Freire, G. J. de M. (2012). Realidade Aumentada no ambiente do Patrimônio Histórico. Disegnarecon, 5, 153-162.
ICOM Portugal. (2020, 30 de maio). Ética e Museus na era digital – Projecto Mu.SA. ICOM Portugal.
Monteiro, E. M. A., Lima, I. F. de, & Pinho Neto, J. A. S. de. (2023). Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação na Preservação da Memória e da Identidade Cultural de Comunidades Tradicionais. Páginas a&b: Arquivos e Bibliotecas, 3(19), 3–18.
Muchacho, R. M. da S. P. (2009). Museu e Novos Media: A Redefinição do Espaço Museológico [Dissertação de Mestrado, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias].
Silva, F. G. da, & Coelho, A. (2024). A digitalização de património cultural e a preservação digital: novos caminhos, velhos hábitos. Repositório Comum RCAAP.
Velhinho, A., & Almeida, P. (2023). O Legado da Memória Coletiva na Cultura Digital: Digitalização, Mapeamento Cultural e Cocriação. Comunicação e Sociedade.