Empreendedorismo e Educação Profissional – Mindset Empreendedor: Cultivar competências de gestão em jovens e adultos.

A intersecção entre o empreendedorismo e a educação profissional representa um pilar fundamental para o desenvolvimento socioeconômico contemporâneo. O empreendedorismo não deve se limitar à visão restrita de abertura de novos negócios; ele se configura, acima de tudo, como um comportamento e uma forma crítica de ver e atuar no mundo (Sebrae, 2021). Como afirmava Peter Drucker, ser empreendedor transcende a jornada de trabalho rotineira, tratando-se fundamentalmente de um estilo de vida e de uma postura contínua de aprendizagem e crescimento (Drucker, 1985, citado em Palma & Pitacho, 2023). Na educação profissional de jovens e adultos, cultivar um mindset empreendedor e sólidas competências de gestão torna-se essencial para a formação de cidadãos autônomos, resilientes e protagonistas de suas próprias histórias.
O Mindset Empreendedor e a Psicologia do Sucesso O termo mindset (mentalidade) refere-se ao modelo mental ou paradigma através do qual os indivíduos interpretam a realidade e baseiam os seus comportamentos e decisões (Ireland, Hitt, & Sirmon, 2003, citados em Palma & Pitacho, 2023). Neste contexto, a literatura destaca a grande relevância do “mindset de crescimento” (growth mindset), conceito atrelado aos estudos de Carol Dweck (2017), que define a crença de que habilidades e inteligências podem ser desenvolvidas por meio de esforço, boas estratégias e orientação contínua (Ferreira, Bandeira, & Gonçalves, 2019).
Diferentemente das pessoas com um mindset fixo — que tendem a evitar desafios por medo de parecerem incompetentes —, o indivíduo que possui um mindset de crescimento encara o fracasso não como falta de capacidade, mas como um estímulo para a ampliação das suas habilidades (Ferreira, Bandeira, & Gonçalves, 2019). Estudos evidenciam que existe uma relação direta e positiva entre o mindset de crescimento e o potencial empreendedor, garantindo que o estudante se abra a novos conhecimentos e persista frente aos obstáculos no ambiente profissional (Ferreira, Bandeira, & Gonçalves, 2019).
Cultivando Competências de Gestão na Educação Profissional Na educação, a formação para o trabalho não deve se restringir ao simples domínio de habilidades técnicas ou à mera disposição para cumprir ordens. O novo perfil exigido valoriza traços como iniciativa, raciocínio e discernimento (SENAI, 2008). A competência no meio profissional deve ser compreendida como um “saber fazer com conhecimento e consciência a respeito do impacto deste saber” (Braslavski, 1993, citado em SENAI, 2008).
Para cultivar as competências de gestão nos alunos, o referencial do programa Empretec da ONU (aplicado pelo Sebrae) e os estudos de McClelland (1961) mapeiam comportamentos cruciais (CCEs – Características Comportamentais Empreendedoras) que precisam ser estimulados no ambiente educativo (Sebrae, 2021; Ferreira, Bandeira, & Gonçalves, 2019). Dentre essas competências de gestão e planeamento, destacam-se:
• Estabelecimento de metas: a capacidade de definir objetivos desafiadores, de longo e curto prazo, que sejam claros, específicos e mensuráveis (Sebrae, 2021; Ferreira, Bandeira, & Gonçalves, 2019).
• Planejamento e monitoramento sistemáticos: dividir tarefas de grande porte em subtarefas com prazos bem definidos, revisar os planos continuamente com base no desempenho e manter registros financeiros para a tomada das melhores decisões (Sebrae, 2021; Ferreira, Bandeira, & Gonçalves, 2019).
• Busca de informações, persuasão e redes de contato: agir para desenvolver relacionamentos comerciais, investigar mercados, utilizar estratégias deliberadas de influência de forma ética e consultar especialistas para apoio técnico (Sebrae, 2021).
O Protagonismo de Jovens e Adultos (EJA e Educação Básica) Ao transferir esses conceitos práticos para os jovens da Educação Básica e os sujeitos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), a educação empreendedora atua como uma poderosa força de engajamento. A juventude possui características inerentes de coragem, ousadia e uma visão inconformada em relação ao status quo que, quando direcionadas pelas qualidades do empreendedorismo, tornam-se uma genuína potência de transformação social (Briquez, 2023). O protagonismo juvenil é instigado quando a escola estimula a autonomia e ajuda o jovem a organizar as suas estratégias para a construção do seu “projeto de vida” (Briquez, 2023; Sebrae, 2021).
Para o público adulto trabalhador, as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) atestam o empreendedorismo como uma competência central para o desenvolvimento pessoal, cidadania ativa, inclusão social e empregabilidade (Santos, Silva, & Pereira, 2023). A EJA lida com sujeitos que trazem uma extensa bagagem de vivências e saberes formais e informais, exigindo um currículo que respeite essas trajetórias de vida através de abordagens interdisciplinares (Santos, Silva, & Pereira, 2023). Estimular as habilidades socioemocionais e as competências de gestão nestes adultos não visa unicamente uma inserção utilitarista no mercado, mas sim promover o empoderamento comunitário, a emancipação social e a geração de emprego e renda sustentáveis de indivíduos que se tornam agentes da sua própria história (Santos, Silva, & Pereira, 2023; Briquez, 2023).
Em suma, cultivar o mindset empreendedor e as competências de gestão em jovens e adultos transcende a preparação pontual para a criação de empresas ou obtenção de um emprego. Trata-se da edificação integral de indivíduos alinhados aos quatro pilares da educação para a vida (aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser) (Delors, 2003, citado em SENAI, 2008). Destarte, as instituições educacionais logram sucesso ao formar não apenas trabalhadores, mas verdadeiros protagonistas que intervêm de forma autônoma, inovadora e eticamente responsável na sociedade.
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Referências Bibliográficas
Briquez, L. (2023). O empreendedorismo na Educação Básica como força motivadora no desenvolvimento do protagonismo e de demais competências técnicas e comportamentais. [RMd] Revista Multidisciplinar, 5(1), 163-180.
Ferreira, F. L., Bandeira, P. O., & Gonçalves, C. A. (2019). Mindset, Dificuldades em se empreender e o Potencial Empreendedor: Uma abordagem confirmatória com estudantes graduandos em Administração. Revista de Ciências da Administração, 21(55), 51-68.
Palma, P. J. da, & Pitacho, L. (2023). Mindset empreendedor. In P. J. da Palma, S. P. Gonçalves, M. de S. Antunes, & L. Pitacho (Coords.), Como Criar o meu Projeto Empreendedor – Etapas e Detalhes (pp. 21-43). Edições Sílabo.
Santos, D. Q., Silva, R. N. da, & Pereira, Z. A. (2023). Empreendedorismo e educação de jovens e adultos: uma revisão sistemática a partir da base nacional comum curricular. In S. C. C. G. da Silva, J. B. da Silva, & J. G. de Souza (Orgs.), Inovação Social, Empreendedorismo e Interdisciplinaridade: Socialização dos Estudos Produzidos (pp. 21-40). Editora Metrics.
Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas]. (2021). Competências Empreendedoras: quais são e como trabalhá-las. Centro Sebrae de Referência em Educação Empreendedora (CER).
SENAI [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial]. (2008). Competências Transversais (Vol. 8, Série Educação Profissional para a Nova Indústria). SENAI/DN.