E-commerce e Literacia: Reflexões baseadas na gestão de plataformas online

A evolução tecnológica acelerada e as transformações societais recentes, particularmente impulsionadas pela pandemia da Covid-19, ditaram um crescimento exponencial do comércio eletrónico (e-commerce). Este fenómeno obrigou as empresas a readaptarem as suas estratégias de gestão e marketing digital para conseguirem comunicar com os seus públicos-alvo e assegurar a continuidade do negócio. No entanto, a gestão eficaz de plataformas de e-commerce e a participação ativa nestes espaços vai muito além de ter uma montra digital; exige um forte alicerce na literacia informacional e digital, tanto da parte das organizações que as gerem como dos consumidores que as utilizam.

A sociedade atual, amplamente moldada pelas tecnologias de informação, requer que os profissionais e os consumidores desenvolvam competências de literacia informacional para conseguir localizar, avaliar, utilizar e partilhar informação de uma forma eficiente e ética (Costa, 2025). Quando aplicamos esta necessidade à gestão de plataformas online de e-commerce, deparamo-nos com o desafio de atuar perante a chamada “era da pós-verdade”, uma época caraterizada pela sobrecarga informacional e por ecossistemas online em que as linhas entre a informação genuína e a manipulação são frequentemente ténues (Barriga, 2023).

Um dos reflexos mais críticos da falta de literacia neste setor é a suscetibilidade à desinformação, frequentemente categorizada como fake news. A propagação de conteúdos falsos nas plataformas digitais e nas redes sociais traz implicações severas, afetando de forma destrutiva a confiança do consumidor e a reputação corporativa (O Impacto da Desinformação, 2025). A confiança, definida como a crença na integridade de um serviço mediante o cumprimento das promessas efetuadas pela organização, é o pilar de qualquer relação de e-commerce (Eisingerich & Bell, 2008, como citado em O Impacto da Desinformação, 2025). Consumidores expostos a informações deturpadas ou falsas podem alterar subitamente o seu comportamento de compra e a sua preferência por certas marcas, gerando prejuízos financeiros e danos duradouros à imagem da organização (O Impacto da Desinformação, 2025).

Para proteger o comércio eletrónico destes riscos, a gestão das plataformas deve assentar numa abordagem assente na ética digital (Rockembach & Geerts, 2024). O uso de algoritmos sofisticados para recolha de dados dos consumidores (Big Data) e sistemas de recomendação em plataformas levanta dilemas éticos significativos, como vieses algorítmicos e questões profundas de violação de privacidade e manipulação de consumo (Rockembach & Geerts, 2024; Barriga, 2023). Em resposta, surge a relevância de funções como a do “eticista digital”, um profissional responsável por traduzir padrões éticos para o ambiente de trabalho, garantindo que as tecnologias de e-commerce e inteligência artificial têm um impacto positivo e responsável na sociedade (Rockembach & Geerts, 2024).

A mitigação dos impactos da desinformação nas plataformas de e-commerce obriga a uma resposta proativa através da literacia digital. As marcas não podem apenas confiar no espírito crítico pré-existente dos utilizadores; devem adotar uma comunicação digital transparente e responsável, implementar estratégias de verificação (fact-checking) nos seus sites e envolver-se ativamente no fomento da literacia digital dos seus clientes e colaboradores (O Impacto da Desinformação, 2025; Costa, 2025).

A reflexão sobre o e-commerce e a literacia sublinha que a sobrevivência e o sucesso na gestão de plataformas online dependem de um ecossistema mais do que meramente tecnológico. Requer a construção de uma relação baseada em práticas éticas (Melo, Rockembach, & Silva, 2023, como citado em Rockembach & Geerts, 2024), numa gestão de informação criteriosa que cultive comportamentos informacionais adequados (Costa, 2025) e na literacia mediática, permitindo empoderar os consumidores para fazerem escolhas conscientes e informadas num mundo cada vez mais digital (Barriga, 2023).

——————————————————————————–

Referências Bibliográficas

Barriga, A. C. (2023). Lugares (ausentes) de literacia mediática e digital. Configurações, (31), 19-38. https://doi.org/10.4000/configuracoes.17005

Costa, G. B. da. (2025). Literacia e comportamento informacional na era digital: Oportunidades e desafios organizacionais [Dissertação de mestrado, Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto]. Repositório Comum. http://hdl.handle.net/10400.22/30540

Martins, M. L. P. (2022). Gestão do marketing digital: Uma análise em empresas de comércio eletrónico em tempo de pandemia [Dissertação de mestrado, Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto]. Repositório Comum. http://hdl.handle.net/10400.22/21378

O impacto da desinformação na confiança do consumidor e na reputação empresarial. (2025). Revista Académica de Tendências em Comunicação e Ciências Empresariais, (5). Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto (ISCAP).

Rockembach, M., & Geerts, D. (2024). Eticista digital: Uma função emergente no campo da Informação. Universidade de Coimbra / KU Leuven. https://doi.org/10.14195/2182-7974_37_1_3

Previous Article
Next Article