Liderança Intermédia: O papel dos Coordenadores na inovação.

O contexto educativo atual, marcado por constantes exigências de melhoria e adaptação, tem colocado as estruturas de gestão no centro do debate sobre a qualidade das escolas. Neste cenário, a liderança intermédia, materializada de forma particular na figura do Coordenador de Departamento Curricular, assume uma relevância ímpar. Longe de ser apenas um elo burocrático de transmissão de informação, o coordenador é, cada vez mais, perspetivado como um agente de supervisão pedagógica fundamental para a promoção de uma verdadeira inovação educacional e para o sucesso das instituições.

A autonomia crescente atribuída às escolas exige o desenvolvimento de dinâmicas de poder partilhado e a consolidação de culturas colaborativas autênticas. A este nível, o conceito de liderança distribuída revela-se essencial na promoção de inovações e na responsabilização partilhada. Autores como Harris (2004) e Lima (2008), como citados em Veríssimo, Branco e Monteiro (2013), enfatizam que a liderança distribuída permite tornar as escolas organizações mais democráticas e eficazes. No contexto português, este modelo assenta fortemente nos cargos de coordenação intermédia, cuja capacidade de influência interpessoal é determinante para mobilizar os restantes docentes a implementar mudanças de práticas que, de outra forma, não executariam.

A inovação educacional, compreendida como o conjunto de mudanças dinâmicas que acrescentam valor aos processos pedagógicos e organizativos, constrói-se essencialmente a partir das bases e da ação intermédia. Os departamentos curriculares constituem o espaço central onde nascem e florescem muitas das práticas educativas, podendo ser encarados como autênticos “clusters fomentadores da inovação e do desenvolvimento das próprias instituições escolares” (Veríssimo, Branco, & Monteiro, 2013, p. 34). Como sublinham Morgado e Pinheiro (2011, como citados em Barreiros & Sá, 2021), é ao nível destas estruturas intermédias que se podem criar as condições ideais para alterar práticas pedagógicas, concretizando capacidades efetivas de decisão que impulsionam a construção da inovação.

Contudo, para ser um verdadeiro veículo de inovação, o coordenador depara-se com o desafio de ultrapassar a mera gestão administrativa e burocrática, assumindo-se como um mediador e um líder. Para interrogar, cooperar, orientar e avaliar ações numa equipa onde existem múltiplas práticas pedagógicas e valores subjetivos, o coordenador carece de inteligência emocional e capacidade comunicativa (Sequeira, 2012). Sem essa “arte da linguagem” e capacidade para persuadir e influir no estado emocional das pessoas de forma consonante, dificilmente se conseguirão gerir relações multidisciplinares e formar uma equipa coesa orientada para objetivos de melhoria e inovação (Goleman et al., 2002, como citados em Sequeira, 2012).

O perfil de liderança que mais favorece a implementação de processos inovadores aproxima-se significativamente da liderança transformacional. Este estilo revela-se o mais eficaz ao estimular a inovação porque baseia a sua ação na promoção do trabalho colaborativo, na partilha constante de ideias e na mobilização orgânica em torno de desafios partilhados (Costa, 2023). Ao mesmo tempo, o líder intermédio age como promotor da quebra de rotinas e perspetivas individualistas; ele desafia as formas acomodadas de olhar para a realidade escolar, encaminhando o grupo no sentido da transformação contínua e na procura de melhorias no processo de ensino-aprendizagem (Gil & Sá, 2023).

É inegável que as lideranças intermédias atuam como o “motor imóvel” do desenvolvimento cognitivo, pessoal e profissional nas escolas (Favinha & Sequeira, 2012, como citados em Barreiros & Sá, 2021). A verdadeira inovação educacional nas organizações escolares depende da capacidade e coragem destes coordenadores para assumirem o seu papel de líderes construtores de pontes e dinamizadores do talento dos seus pares. Quando munido de uma visão transformacional e sustentado num trabalho verdadeiramente colaborativo, o Coordenador de Departamento Curricular é a peça-chave que garante que o ensino evolui e se inova, preparando as escolas para uma resposta eficaz à complexidade da sociedade atual.


Referências Bibliográficas

Barreiros, A., & Sá, S. (2021). Lideranças Intermédias: O Seu Papel na (Re)Construção de Uma Escola de Qualidade. Revista Multidisciplinar Humanidades e Tecnologias (FINOM), 28, 124-148.

Costa, A. C. R. da. (2023). A influência das lideranças escolares na implementação de inovação educativa: um estudo de casos no Concelho de Vila Nova de Famalicão [Dissertação de Mestrado, Universidade Aberta]. Repositório Aberto. http://hdl.handle.net/10400.2/15136

Gil, N. M. P., & Sá, S. O. e. (2023). O papel de liderança dos coordenadores de departamento curricular. Altus Ciência, 16, 216-265. https://doi.org/10.5281/zenodo.7032553

Sequeira, A. (2012). A Importância e as competências dos coordenadores de departamento enquanto estrutura de gestão intermédia das escolas. PROFFORMA, 07.

Veríssimo, M. M., Branco, M. L., & Monteiro, S. (2013). A criação de um clima moral de escola: o papel dos coordenadores de departamento curricular. Revista Iberoamericana de Educación, 29-47.

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