Formação ao Longo da Vida – Reskill e Upskill: A Ciência da Requalificação Profissional na Idade Adulta

A revolução tecnológica e a rápida integração da inteligência artificial (IA) estão a transformar o mercado de trabalho a um ritmo sem precedentes, exigindo uma readaptação constante dos profissionais. Neste cenário contemporâneo, o paradigma tradicional de estudar apenas durante a juventude ou uma única vez na vida já não é suficiente, tornando a aprendizagem ao longo da vida (lifelong learning) uma necessidade absoluta para a permanência e sustentabilidade económica no mercado. É perante esta exigência estrutural que os conceitos de upskilling e reskilling assumem um protagonismo inegável na atual gestão de talentos.

O upskilling (aprimoramento) consiste no desenvolvimento contínuo de competências adicionais para que o profissional se mantenha atualizado, melhore a sua performance e se prepare para assumir maiores responsabilidades na função que já ocupa. Por outro lado, o reskilling refere-se à requalificação, ou seja, à aquisição de competências completamente novas e diferentes, que permitem ao indivíduo assumir novas funções ou realizar uma transição de carreira, um processo vital quando as funções originais se tornam obsoletas devido à automação ou evolução dos processos. O investimento nestas áreas assenta numa forte justificação económica alicerçada na Teoria do Capital Humano, em que o processo educativo e formativo é considerado um elemento fundamental para formar capital humano, garantindo a capacidade competitiva das economias e o incremento da riqueza social, conforme teorizado por Schultz (1973).

Contudo, a viabilidade desta requalificação profissional na idade adulta é amplamente suportada e explicada pela ciência, especificamente pela neurociência e pelas bases da andragogia. O conceito central que sustenta a aprendizagem contínua é a neuroplasticidade, que desmistifica a crença antiga de que um cérebro adulto perde a sua capacidade de aprender ou de modificar o seu número de neurónios. Segundo Garrido (2020), a neuroplasticidade humana desenvolve-se a partir da perceção, permitindo que o cérebro reorganize as suas redes e conexões sinápticas ao longo de toda a vida quando o indivíduo é exposto a novos ambientes e cenários. Silva (2021) corrobora esta visão ao evidenciar que o desenvolvimento do sistema nervoso e a criação de novas ligações não terminam na infância, continuando em menor escala na fase adulta através de interações contínuas com o ambiente. Deste modo, Fernández (2002) reforça cientificamente que a idade não constitui, por si só, um impedimento biológico para a aprendizagem.

Do ponto de vista pedagógico e de desenho de formações (design thinking educacional), a educação de adultos obedece a métodos próprios. Os teóricos clássicos Lindeman (1926) e Knowles (1990) estabeleceram os alicerces da Andragogia, argumentando que o ensino de adultos não pode basear-se no mesmo modelo autoritário e rígido da pedagogia infantil. Knowles (1990) postula que a aprendizagem do adulto está intrinsecamente ligada à sua necessidade real de aplicar aquele conhecimento. Segundo os autores, as experiências profissionais e de vida previamente adquiridas devem servir como alavancas e recursos principais para o novo aprendizado, sendo vital que os adultos mantenham uma grande necessidade de autodireção.

Reconhecendo as descobertas da ciência cognitiva, quer o Estado quer as organizações privadas têm investido fortemente em mecanismos práticos de reskilling e upskilling. Em Portugal, por exemplo, os Centros Qualifica funcionam como instrumentos de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), valorizando saberes práticos e informais da vida do trabalhador. No setor corporativo, surgem programas como o PRO_MOV, focados no reskilling e atualização de competências de profissionais ativos e desempregados, além da aplicação de abordagens como a metodologia 70-20-10, que consolida a aprendizagem primariamente na experiência prática e diária de trabalho (70%), seguida de interações (20%) e formação teórica (10%).

A ciência da requalificação profissional demonstra que o ser humano não só está neurologicamente equipado para aprender eternamente, como as empresas dependem dessa plasticidade para sobreviver. O upskilling e o reskilling deixaram de ser vistos como custos operacionais para serem as verdadeiras apostas estratégicas de competitividade, sustentabilidade e inovação.

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Referências Bibliográficas

Bottone, A. (2022). Upskilling e reskilling: estratégias para o desenvolvimento de competências. https://alfredobottone.com.br/artigos/upskilling-e-reskilling/

Fernández, F. S. (2002). Características de la persona adulta que inciden en el curriculo. In Universidad Nacional de Educación a Distancia (Ed.), Enseñanza y Aprendizaje Abiertos y a Distancia (Unidad Didáctica 11, Módulo II). Madrid: UNED.

Garrido, S. (2020). Neuroeducação e neurodidática: como o cérebro aprende (1.ª ed.). São Paulo: Contentus.

Knowles, M. S. (1990). The Adult Learner: a neglected species (4th ed.). Houston: Gulf Publishing.

Lindeman, E. C. (1926). The Meaning of Adult Education. New York: New Republic.

Schultz, T. W. (1973). Capital Humano. Rio de Janeiro: Zahar.

Silva, F. E. da. (2021). Neurociência e aprendizagem: uma aventura por trilhas da neuroeducação (1.ª ed.). Curitiba: Intersaberes.

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