Cidadania e Bem-Estar: Literacia para a Cidadania e Tendências Científicas na Luta contra a Desinformação

A proliferação do ecossistema digital democratizou o acesso à informação, mas trouxe consigo o desafio sistémico da desinformação, que ameaça as sociedades democráticas e o bem-estar psicossocial dos indivíduos (Ordem dos Psicólogos Portugueses [OPP], 2025). Este artigo explora o impacto da desinformação nas esferas individual, institucional e social, analisando as tendências científicas atuais para o seu combate (Media Literacy, 2024). Focando-se na literacia mediática, o estudo destaca intervenções baseadas na Ciência Psicológica, especificamente as estratégias de debunking e de inoculação psicológica (prebunking) através de Serious Games (American Psychological Association [APA], 2023; Silva, 2024). Conclui-se que o combate à desinformação exige uma abordagem multidimensional, onde a educação e a literacia atuam como pilar para promover o pensamento crítico e a resiliência da população (Silveira & Morais, 2021).
O acesso à informação tornou-se democratizado e facilitado pelos meios digitais, o que, apesar de altamente benéfico, resultou num aumento exponencial da exposição a conteúdos factualmente falsos e intencionalmente manipuladores (OPP, 2025). A era digital culminou num fenómeno que a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020) classificou como “infodemia”, caracterizado por um excesso de informações que se alastram rapidamente e dificultam o acesso a orientações confiáveis (Sevilha & Persch, 2021).
Para compreender adequadamente o fenómeno, é fundamental distinguir a informação incorreta (misinformation), que é partilhada sem intenção de causar dano, da desinformação (disinformation), que consiste em conteúdos enganosos disseminados de forma deliberada para manipular ou causar prejuízos (Wardle & Derakhshan, 2018, como citados em Silva, 2024). Num contexto em que a desinformação molda atitudes, atinge a saúde e desestabiliza a tomada de decisão, refletir sobre as estratégias científicas e de literacia tornou-se imperativo para proteger o bem-estar cívico (OPP, 2025).
O Impacto da Desinformação no Bem-Estar e na Cidadania
A desinformação atua de forma perniciosa através de três níveis interligados: o nível macro (estado e democracia), o nível meso (instituições e meios de comunicação) e o nível micro (indivíduos) (Media Literacy, 2024). A nível micro, os conteúdos desinformativos são frequentemente concebidos para explorar vulnerabilidades psicológicas, captando a atenção por via emocional e baseando-se no “efeito da verdade ilusória”, onde a repetição de uma falsidade aumenta a perceção da sua veracidade (APA, 2023; Van der Linden, 2024, como citados em OPP, 2025).
No âmbito social e democrático, a disseminação de desinformação é amplificada pelos algoritmos das redes sociais, que contribuem para a formação de bolhas digitais (Junqueira, 2023). Nessas bolhas, as pessoas são expostas quase em exclusivo a perspetivas que confirmam as suas crenças pré-existentes, gerando um aumento do extremismo e tornando a população intolerante a opiniões divergentes (Junqueira, 2023).
Literacia Mediática e Cidadania Digital
Face a este cenário, a promoção da literacia mediática assume-se como uma competência fundamental (Silveira & Morais, 2021). A compreensão crítica e a participação ativa são a base de todas as democracias, sendo que a ausência destas valências deixa os cidadãos expostos à manipulação, afetando gravemente a qualidade do debate público (Silveira & Morais, 2021).
A evolução para a verdadeira “cidadania digital” transcende a mera capacidade de utilizar a internet de forma instrumental (Sevilha & Persch, 2021). Envolve a habilidade de formular questões cruciais sobre as fontes, questionar os interesses por trás da veiculação e compreender como a informação espelha as forças económicas e políticas da sociedade (Lucas, Mendonça, & Viana, 2020, como citados em Sevilha & Persch, 2021). Reconhecendo esta urgência, projetos políticos recentes, como o Plano Nacional de Literacia Mediática – Estratégia 2025-2029 em Portugal, visam capacitar os cidadãos para analisar e interpretar conteúdos de forma rigorosa, distinguindo com clareza os factos da desinformação (Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros [SGPCM], 2025).
Tendências Científicas na Luta contra a Desinformação
A Ciência Psicológica tem delineado caminhos cruciais para capacitar os cidadãos através de estratégias baseadas em evidências (OPP, 2025). Estas intervenções podem ser divididas em duas grandes correntes: as reativas e as preventivas.
• Estratégias Reativas (Debunking): O debunking visa corrigir a desinformação explicando os motivos pelos quais esta está incorreta, substituindo-a por factos verdadeiros (OPP, 2025). A técnica mais recomendada na literatura é a da “sanduíche da verdade” — que consiste em afirmar o facto verdadeiro, introduzir e alertar sobre o mito, e reforçar a verdade factual de seguida (APA, 2023). Contudo, a eficácia destas táticas tem limites, uma vez que a desinformação se propaga frequentemente de maneira mais rápida e extensa do que as suas próprias correções (Vosoughi, Roy, & Aral, 2018, como citados em Silva, 2024).
• Estratégias Preventivas (Prebunking e Inoculação Psicológica): Para contornar as falhas das intervenções a posteriori, a comunidade científica tem focado na Teoria da Inoculação Psicológica, introduzida inicialmente por McGuire na década de 1960 (Silva, 2024). Tal como uma vacina médica expõe o corpo a uma versão inativa de um vírus para criar anticorpos, o prebunking atua como uma vacina cognitiva, expondo os indivíduos de forma preventiva e enfraquecida a técnicas de manipulação online, fortalecendo a sua resiliência mental (Roozenbeek & van der Linden, 2019, como citados em Silva, 2024).
O Uso de Serious Games Na transposição do prebunking para a prática, a gamificação destaca-se como uma das inovações mais relevantes (Silva, 2024). A utilização de Serious Games — como o Bad News, o Go Viral! e o Meias#Verdades — tem provado ser uma ferramenta interventiva altamente profícua (Axelsson et al., 2024; Silva, 2024). Estes jogos colocam o jogador na pele do disseminador de fake news, ensinando de forma imersiva e ativa os mecanismos da desinformação: a polarização, o apelo emocional extremado, a difamação e a criação de falsas identidades (Silva, 2024). Ao vivenciarem a “argumentação interna” exigida pelo jogo, os participantes aumentam de forma estatisticamente significativa a sua capacidade de destrinçar técnicas manipuladoras a longo prazo (OPP, 2025; Silva, 2024).
Combater o complexo fenómeno da desinformação não pode apoiar-se numa única estratégia isolada, sendo exigida uma colaboração sistémica que englobe jornalistas, entidades públicas, escolas, psicólogos e plataformas tecnológicas (OPP, 2025; Media Literacy, 2024). A promoção contínua da literacia mediática, aliada a intervenções precoces e atrativas de inoculação psicológica (Serious Games), constitui a via cientificamente mais robusta para formar cidadãos imunes à polarização e defensores ativos dos pilares democráticos (Silva, 2024; SGPCM, 2025).
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Referências
American Psychological Association. (2023). Using psychological science to understand and fight health misinformation: An APA Consensus Statement. American Psychological Association.
Axelsson, C.-L., Nygren, T., Roozenbeek, J., & van der Linden, S. (2024). Bad News in the civics classroom: How serious gameplay fosters teenagers’ ability to discern misinformation techniques. Journal of Research on Technology in Education, 1-28.
Junqueira, H. (2023, 30 de outubro). Extremismo digital: como os algoritmos alimentam a polarização política. Ipsos.
Media Literacy. (2024). Literacia Mediática para combater a Desinformação: Notas para Educadores. European Media and Information Fund & NOVA FCSH.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2025). Desinformação: Prevenção e Intervenção. Lisboa.
Organização Mundial da Saúde. (2020). Entenda a infodemia e a desinformação na luta contra a COVID-19.
Secretaria-Geral da Presidência do Conselho de Ministros. (2025). Plano Nacional de Literacia Mediática – Estratégia 2025-2029. Governo da República Portuguesa.
Sevilha, E. L. P., & Persch, H. C. A. (2021). Cidadania digital e os desafios do direito em face à desinformação online. Revista Científica da Faculdade de Educação e Meio Ambiente – FAEMA, 12(esp), 135.
Silva, K. M. F. C. e. (2024). Jogo Meias#Verdades: A contribuição da teoria da inoculação psicológica na prevenção da desinformação on-line e radicalização da política brasileira [Tese de doutorado, Universidade Federal de Pernambuco]. Repositório Institucional da UFPE.
Silveira, P., & Morais, R. (2021). Literacias, cidadania e democracia: um caminho comum. Comunicação Pública, (Dossiê temático).